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O Centro de Estudos Medievais – Oriente & Ocidente (CEMOrOc), ligado à Faculdade de Educação (FE) da USP, promoveu o lançamento do livro Comunicação na Grécia Antiga – Reflexões para a mídia do século 21, de autoria de um de seus Diretores Científicos de Eventos, Roberto Carlos Gomes de Castro.

O formato da sociedade grega dos séculos 5 e 4 a.C foi o mote para a realização do livro. “Todas as decisões eram tomadas em conjunto, nas assembleias dos cidadãos, que eram realizadas mensalmente”, explica o autor. Com a democracia direta em vigor, a ausência de uma figura hierárquica como prefeito ou presidente tornava necessário que se debatessem eventuais opções conflitantes para os cidadãos.

“Quando eles precisavam decidir, por exemplo, se entrariam ou não em guerra com uma outra comunidade, sempre havia as considerações de oradores a favor e também contra a escolha. Essa ideia de persuasão pela retórica é apresentada e estudada nas minhas aulas, juntamente com as inspirações que ela nos traz atualmente”, conta o pesquisador.

Roberto Castro | Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP - USP Imagens
 

A publicação aborda, principalmente, cinco pensadores gregos, todos estudiosos de retórica, entre outros temas, e todos apresentando divergências e complementos sobre o assunto, além de trazê-lo para a comunicação atual.

“Resolvi focar os conceitos de Górgias, Platão, Aristóteles, Isócrates e Demóstenes, pois são trabalhos interessantíssimos e extremamente atuais, mesmo tendo sido formulados há tanto tempo, e que podem gerar benefícios aos comunicadores do nosso tempo”, justifica.

Além de graduado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e mestre e doutor pela FE, Roberto Castro também é docente do Centro Universitário das Faculdades Integradas Alcântara Machado (Unifiam) e um dos editores do Jornal da USP.

Discurso antes do conteúdo

Segundo o autor, Górgias era um sofista, “um orador que pregava o encantamento do discurso, desconsiderando até mesmo o valor do conteúdo ou do benefício dele”. Na opinião de Castro, este tipo de apresentação é o que mais ocorre nos meios de comunicação brasileiros da atualidade.

“São muitos os exemplos de programas de TV, por exemplo, que seguem, mesmo sem consciência, a linha sofística”, aponta.

Programas televisivos como o Big Brother, por exemplo, são criticados nas redes sociais, mas continuam gerando audiência, o que o professor afirma também ter relação com a visão dos sofistas. “É um sistema tão genial, que o orador, na época, e o comunicador, atualmente, promovem uma violência psicológica com seu espectador; usam um discurso agradável para forçá-lo a fazer o que eles querem, e a pessoa nem percebe, e ainda por cima fica feliz em seguir o discurso citado”.

Visões contrastantes e complementares

A Academia de Platão em Atenas - Mosaico em Pompéia | Imagem: Wikimedia Commons

Na sequência, o livro aborda o trabalho de Platão, criticando fortemente a sofística. “Ele considerava o discurso pregado por Górgias um ‘embuste’, uma mentira, porque não havia diálogo e nem conteúdo”, explica o pesquisador. Segundo o trabalho, havia dois pontos a serem considerados: a busca pela verdade absoluta das coisas e a aplicação da dialética, para possibilitar o diálogo ausente na visão sofista.

Os estudos feitos por Aristóteles e Isócrates, neste campo, são complementares. Ambos defendiam a união do discurso formalmente belo, mas com um conteúdo intrínseco. “A diferença básica entre os dois pensadores é que Isócrates considera válido apenas o discurso com carga cultural, que agregue conhecimento, educação ao indivíduo, enquanto Aristóteles não se atém à natureza do discurso, e sim às questões do éthos [caráter do orador, esforço em se fazer confiável] e do páthos [o sentimento do ouvinte, ao qual o orador busca aproximar seu discurso]”.

Mais uma vez, o especialista traz o conceito para a atualidade brasileira. “As nossas escolas públicas já têm um déficit muito grande no quesito transmissão de cultura, e o jornalismo cultural do país, que poderia tomar para si esse papel, é muito fraco. Não é raro vermos um caderno de cultura de um grande jornal tomado quase que em toda a primeira página por propaganda. Só por isto já podemos ver como está a nossa cultura”, lamenta.

O último dos cinco autores estudados, Demóstenes, focava seu trabalho na conscientização dos cidadãos acerca de suas responsabilidades. “Ele era o tipo de orador que falava: ‘olha, esse discurso bonito aí é inútil’. Para ele, era mais válido se apontar para o ouvinte e chamá-lo de ‘preguiçoso, acomodado, individualista’, se isso fizesse com que o cidadão tomasse para si a responsabilidade de melhorar a vida em conjunto”, detalha o docente, para quem este trabalho está em falta no cenário midiático do Brasil. “No máximo, temos alguns programas sobre meio ambiente que pregam esse esforço de cada um, mas no geral, é mais fácil o profissional abrir mão de fazer seu trabalho e reclamar, como médicos e professores das redes públicas, por exemplo, que não se esforçam porque ‘ganham pouco’. Se eles aceitaram aquele salário quando começaram, têm que fazer um excelente trabalho, não têm desculpa”.

Projeção futura

O pesquisador afirma que ainda é muito difícil encontrar um meio de comunicação que reúna todas as características elencadas por Platão, Aristóteles, Demóstenes e Isócrates como necessárias aos discursos, mas anseia por isso. “Essa é uma grande contribuição dos gregos antigos para a comunicação atual. Esses conceitos, juntos, precisam ser o norte dos comunicadores, e acho possível chegarmos lá”.

O livro, segundo ele, traz a denúncia  de que mídia atual é autoritária e manipuladora, e não deveria ser assim, voltada a interesses particulares, mas sim ao bem coletivo.

Para adquirir a obra, publicada pelo CEMOrOc com o apoio da Factash Editora, o interessado deve entrar em contato via email e solicitar o produto, que custa R$ 20,00.

Mais informações: rccastro@usp.br, com Roberto Carlos Gomes de Castro

 

Fonte: http://www5.usp.br/26157/livro-faz-paralelo-entre-sofismo-e-comunicacao-praticada-na-midia-atual/