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Cinema e Educomunicação. Nesta coluna, a Profª Drª Cláudia Mogadouro indica e comenta filmes que podem ser enriquecedores na formação cultural dos educomunicadores, tanto pelos temas que abordam quanto pela linguagem. Tais filmes não precisam, necessariamente, ser exibidos junto aos alunos.

Antes de tudo, é interessante que os educomunicadores os conheçam, apreciem, discutam sobre as obras e ampliem sua visão de mundo. A utilização em sala de aula pode ser uma decorrência, desde que o professor avalie sua pertinência.

 


“Não vi nada. Não tenho nada a ver com isso”. No contexto político brasileiro de 1971, esta frase poderia adquirir um significado de alienação e omissão em relação à ditadura militar, que estava no seu auge. Mas no filme Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti, a frase dita por uma empregada doméstica (na verdade, é um pensamento alto, pois ela está sozinha em seu quarto) tem outra conotação. Ela representa solidariedade, que é, a meu ver, o tema principal do filme. A solidariedade de tantas pessoas comuns em um período tão difícil de nossa história.

O mais recente filme desse grande cineasta paulista trata esse período tão nefasto a partir de um viés diferente do que já foi falado, cantado ou filmado. Com ternura e humor (aquele humor melancólico, uma das marcas de Giorgetti), o inverno paulistano de 1971 é apresentado com o vigor de jovens idealistas e apaixonados.

Ugo Giorgetti trabalhou muito tempo com publicidade até ir pro cinema. Seus filmes mais conhecidos são Festa (1989), Sábado (1996), Boleiros – Era uma vez o futebol (1998), O Príncipe (2002) e Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos (2004). Cara ou Coroa (2012) talvez seja o seu filme mais otimista, já que seu foco é na rede invisível de apoio que se formou, como resistência política, e que nem sempre é conhecida. Todos os personagens são complexos, cheios de nuances. Não há maniqueísmos. O taxista reacionário, que é capaz de ajudar um sobrinho comunista; o avô general, anti-comunista, carinhoso com a neta; o dirigente comunista radical que não entende nada de arte; o diretor de teatro super atrapalhado com as contas e viciado em corridas de cavalo; os namorados apaixonados que se arriscam simplesmente porque são jovens...

É bom lembrar que filmes brasileiros com marca autoral, como é o caso deste, não costumam ficar muito tempo em cartaz. Quanto mais público houver nas primeiras semanas, maior é sua permanência em algumas poucas salas, em geral do circuito alternativo. Por isso, se você ficou instigado, corra pra ver Cara ou Coroa, antes que os blockbusters os tire das salas de cinema...

 


Educom.Cinema: Novo filme de Walter Salles Na Estrada (On the Road, 2012)

Trata-se da adaptação do livro homônimo de Jack Kerouac (1957)que se tornou ícone do movimento beat, a contracultura norte-americana do pós-guerra. O livro esteve sob censura nos EUA, mas causou frisson na Europa e na América Latina nos anos 1970 e 1980. Walter Salles assume que o livro marcou profundamente sua juventude. O cineasta Francis Ford Coppola adquiriu os direitos do livro e mais de 10 cineastas do mundo todo já tentaram fazer a adaptação e desistiram no meio do caminho. Walter Salles conseguiu realizar a empreitada, mas não sem esforço. Justamente em virtude da responsabilidade de adaptar um livro tão marcante, percorreu todo o caminho da viagem que Kerouac relata em seu livro, sentiu e documentou a paisagem.

 

E inevitável que suas opções não agradaram a todos. Especialmente quem leu o livro, criticou o filme por ele ser suave demais. Salles amenizou bastante as cenas de sexo e de uso de drogas. Assim mesmo, choca pela irreverência. Imaginem nos anos 70 a repercussão desse livro!

 

O filme deve agradar muito mais a quem não leu o livro.

 

Salles optou por uma mescla do livro com a biografia de Jack Kerouac e, de certa forma, atualizou as rupturas com os valores conservadores norte-americanos, provavelmente para conquistar o publico jovem contemporâneo. Não por acaso, escolheu atores atraentes para a molecada como Sam Riley, Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst e os veteranos Viggo Mortensen e Steve Buscemi. Além do diretor, o único toque brasileiro e a linda atriz Alice Braga, ótima no papel de Terry. A direção de atores, aliás, e outro forte do filme.


Deus da Carnificina em cartaz em São Paulo

O filme "Deus da Carnificina" ("Carnage") continua em cartaz em São Paulo e tem dado o que falar. O roteiro do filme vem de uma peça de teatro homônima de Yasmina Reza, que co-escreveu o roteiro do filme com o diretor Roman Polanski.

Alguns críticos comentam que se trata de um "teatro filmado". Não é bem assim. Apesar de tudo se passar em um apartamento, o experiente Polanski usa e abusa dos recursos do cinema para mostrar vários ângulos dos personagens, enquadradando as cenas de acordo com o jogo que se estabelece na história. O passeio da câmera pelo apartamento nos deixa sempre desconfortáveis, o que é aboslutamente intencional.

A história é de dois casais que se encontram para resolver uma briga ocorrida em um parque, envolvendo seus filhos (de 11 anos). Aparentemente, o encontro se dá "para o bem das crianças", mas a discussão vai expondo cada vez mais a hipocrisia da sociedade americana (só americana?) e o "politicamente correto" dá lugar ao caos. Fica evidente que, em nenhum momento (nem mesmo na abertura do filme) as crianças estão em primeiro plano. A peça se aproxima de um teatro do absurdo, porém, naturalizada pelos hábitos contemporâneos. Difícil que alguém não se identifique, pelo menos em alguma cena, com algum dos personagens.

Os atores são esplêndidos: Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz e John C. Reily. Roman Polanski está em plena forma nos seus 78 anos. Nascido em Paris, passou a maior parte da infância e juventude na Polônia. Realizou grandes obras para o cinema, dentre elas: Repulsa ao Sexo (1965), O Bebê de Rosemary (1968), Chinatown (1974), Tess (1979), O Pianista (2002).


Violeta foi para o céu

Adilson Citelli

No ano de 1967 duas ocorrências marcaram fundo a geração que na América Latina, e em outras partes do mundo, encontrava-se envolvida com os movimentos libertários: as mortes de Ernesto Che Guevara e de Violeta Parra. Esta, chilena, cantora, compositora, ceramista, artista plástica, agitadora cultural, militante comunista, quando se suicidou, aos cinquenta anos, havia alcançado pleno reconhecimento pela sua obra. As canções de Violeta Parra correram o mundo e foram gravadas, em diferentes momentos, por cantores e cantoras populares: Milton Nascimento, Mercedes Sosa, Elis Regina, para ficarmos com alguns deles. Che Guevara já ganhou toda sorte de referências e várias cinebiografias. Agora é a vez de Violeta Parra. As telas da cidade recebem Violeta se fue a los cielos (Violeta foi para o céu) película ganhadora do primeiro prêmio do festival de Sundance, nos Estados Unidos, em 2012, na categoria de cinema mundial.

O filme é dirigido pelo também chileno Andrés Wood, que já havia realizado o excelente Machuca, um sensível retrato da vida do país andino atravessado pelo golpe militar comandado por Augusto Pinochet. Neste novo trabalho, Andrés Wood, em adaptação a partir do livro escrito pelo filho de Violeta, o também cantor e compositor Angel Parra, consegue a façanha de contar a história de um mito sem incorrer nos problemas comuns que espreitam tal tipo de realização: os apelos encomiásticos, o triunfalismo, a exacerbação idealizadora. O que vemos na tela é a trajetória dramática, humanizada, com tintas e cores que oscilam entre o envolvimento emocionado da artista com o seu povo e o vetor, às vezes patético, de uma personalidade depressiva, a caminho da autodestruição. Neste percurso, porém, acompanhamos os episódios afeitos a uma pesquisadora incansável das fontes populares da música andina, a autodidata que aprendeu cantar e a tocar longe das influências acadêmicas, a mulher capaz de se apaixonar, de se envolver com os problemas do seu tempo. De certa forma, Violeta Parra está em uma linhagem de músicos fortemente inspirados nos elementos do folclore, das tradições populares e, alguns, com tendência militante à esquerda, caso, primeiro, do cantor e compositor norte-americano Woody Guthrie (1912-1967) e, depois, com os devidos ajustes, de Boby Dylan (1941 - ).

O papel de Violeta Parra é vivido pela atriz Francisca Gavilán, em atuação notável, não apenas pelo seu empenho em representar a complexa personalidade de uma mulher que viveu a vida em seus limites, mas por se encarregar das interpretações musicais compostas por Violeta Parra. O que, sem dúvida, significou uma aposta arriscadíssima, da qual atriz emergiu com méritos.

Andrés Wood elabora a sua narrativa fílmica a partir de montagens que rompem com o esquema linear normalmente associado às obras de caráter biográfico. Em Violeta foi para o céu assistimos, contudo, à introdução de estratégias em flashback, com rápidos deslocamentos entre presente e passado. O esquema dos deslocamentos espacio-temporais tanto adiciona vitalidade ao filme como assegura o necessário nível de compreensão aos desdobramentos históricos implicados no percurso artístico e pessoal de Violeta Parra.

O filme, mais do que um apelo nostálgico para se reencontrar uma personagem que teve presença marcante na segunda metade do século passado, tanto na América Latina como no resto do mundo, é um convite para se mergulhar em uma forma de produzir música, em seus diálogos com os materiais gestados no cotidiano dos homens e mulheres simples, conquanto cifrados por rara qualidade estética, harmônica, melódica, e que marcaram definitivamente o imaginário sonoro, sobretudo, latino-americano. Andrés Wood não deixa de provocar o espectador ao reservar a canção mais célebre de Violeta Parra, Gracias a la vida para o final do filme. Após o desfecho trágico da artista, com os letreiros rodando e a plateia em uma espécie de frustração por não ouvir exatamente a composição mais conhecida de Violeta Parra, irrompe o canto exaltação, amoroso, reverencial da vida: “Gracias a la vida que me há dado tanto/Me Dio dos luceros que cuando los abro/Perfecto distingo lo negro del Blanco/Y en el alto cielo su fundo estrellado/Y em las multitudes el hombre que yo amo (...)”. Entende-se, afinal, porque a militante comunista, na voz de Francisca Gavilán, ganhou o caminho do céu.

 


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