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O Palhaço


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FICHA TÉCNICA:

Direção: Selton Mello Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicatto Produção: Vânia Catani Direção de Fotografia: Adrian Teijido Direção de Arte: Cláudio Amaral Peixoto Trilha Sonora: Plínio Profeta

Elenco: Paulo José (Valdemar / Palhaço Puro Sangue); Selton Mello (Benjamim / Palhaço Pangaré); Larissa Manoela (Guilhermina); Giselle Motta (Lola); Teuda Bara (Dona Zaira); Álamo Facó (João Lorota); Cadu Fávero (Tony Lo Bianco); Erom Cordeiro (Robson Felix); Hossen Minussi (Chico Lorota); Maíra Chasseraux (Lara Lane); Thogun (Gordini); Bruna Chiaradia (Justine); Renato Macedo (Borrachinha); Tony Tonelada (Meio Quilo); Fabiana Karla (Tonha); Jorge Loredo (Nei); Jackson Antunes (Juca Bigode); Moacyr Franco (Delegado Justo); Tonico Pereira (Beto / Deto Papagaio); Ferrugem (Atendente da Prefeitura);

País e ano de produção: Brasil/2011 Duração: 88 minutos

Sobre o diretor: Selton Mello nasceu em 1972, em Passos/MG. Mudou-se para São Paulo ainda criança e começou a atuar na televisão aos 9 anos. Como ator, participou de várias telenovelas, séries e filmes, sendo que alguns de seus personagens do cinema foram também para TV. Alguns destaques de suas atuações: Lavoura Arcaica, O Auto da Compadecida (Chicó), Lisbela e o Prisioneiro, O Cheiro do Ralo, Meu nome não é Johnny, A Mulher Invisível e Jean Charles. Como diretor, realizou alguns curta metragens, mas seu primeiro longa metragem foi Feliz Natal (2008). Em 2011, realiza O Palhaço, obra pela qual é responsável pelo roteiro, direção e atuação como protagonista.

Sinopse: Benjamim (Selton Mello) e Valdemar (Paulo José) formam a fabulosa dupla de palhaços Pangaré e Puro Sangue. Todos riem dos palhaços, mas Benjamim está em crise existencial, sente-se estressado e acha que perdeu a graça. Benjamin não tem nem carteira de identidade e cismou que um ventilador mudaria sua vida. O público acompanha as aventuras da trupe do circo e a busca interna de Benjamin, nesta comédia poética e emocionante.

 

Alguns comentários que podem alimentar o debate sobre o filme:

    A questão central de O Palhaço é o questionamento de Benjamin sobre sua própria identidade, concretizada no fato dele não possuir carteira de identidade, apenas certidão de nascimento. Sua crise existencial vem também da circunstância do circo ser itinerante, ele não consegue fincar raízes, criar vínculos. Está sempre de passagem. Ele sente necessidade de “dar um tempo”, afastar-se do circo para repensar o sentido da sua vida. A herança da profissão de palhaço o faz questionar se ele está “destinado” ou “condenado” ao circo. Esse questionamento é saudável em todas as profissões: Até que ponto estou seguindo o caminho que alguém traçou para mim? Será que posso ser protagonista da minha história? Será que é possível desviar o caminho percorrido até aqui e seguir outro?

    É inevitável que recebamos uma herança cultural ou, às vezes, até uma herança profissional. Nossa identidade é construída por circunstâncias subjetivas e objetivas. Muitas vezes acontecem acasos em nossos percursos e desviamos um caminho que parecia pré-determinado. Outras vezes o caminho é traçado tão fortemente que é mais difícil mudá-lo. No caso do circo, é muito comum que as pessoas nascidas em famílias circenses sigam, quase sem questionamento, esse caminho. Até porque aprende a olhar o mundo em constante viagem, sem se fixar em nenhum lugar.

    Benjamin tem uma eterna insatisfação que ele obcecadamente persegue na tentativa de comprar um ventilador, como se objetivasse (concretizasse em um objeto) uma solução para o seu vazio interior. Mas o que ele quer mesmo é voltar a achar graça na vida. E seu percurso que, inicialmente, é de afastamento e de negação, transforma-se num reencontro consigo mesmo.

    A insatisfação de Benjamin pode ser levada a qualquer ofício. Quem fará o palhaço rir? Quem cuida da saúde do médico? Ou, quem ensina ao professor?

    O filme O Palhaço faz uma série de homenagens à cultura popular circense e aos artistas em geral, que levam alegria e emoção às pessoas, mas vivem dificuldades de toda ordem. Para que o circo exista, é preciso que alguém (no caso Benjamin) se dedique a uma difícil infraestrutura, sendo que a sociedade nem sempre remunera os artistas de forma digna.

    Até meados do século XX, era comum que o circo apresentasse um espetáculo chamado circo-teatro, em que eram representadas peças dramáticas abreviadas. Portanto, o ator de circo não sabia apenas fazer rir, era um ator dramático também. As emoções andam juntas e a imagem do palhaço que faz rir no picadeiro, mas chora nos bastidores, já rendeu muitas histórias, músicas e pinturas.

    O circo traz um humor ingênuo que remete à nossa infância, esse é um dos motivos porque o filme tanto nos emociona. Embora ligada a uma forte tradição, que deve ser levada adiante pelas famílias circenses, a cultura do circo é livre para agregar brincadeiras e expressões de várias épocas, tornando-o ainda mais popular.

    Interessante pensar que o circo sempre seduziu pessoas que sentiam vontade de fugir com a trupe. No entanto, Benjamin se ressente justamente da falta de vínculos;

 

Observações para se conhecer alguns aspectos da linguagem cinematográfica:

    A fotografia do filme se vale de tons alaranjados principalmente nas cenas do picadeiro. Os artistas, quando estão se apresentando, parecem envoltos em uma atmosfera mágica que os ilumina, criando um clima de encantamento. Nos bastidores, as cores são diferentes, mais naturais. A vida real não é dourada, mas crua e rotineira.

    Em alguns momentos do filme, podemos notar o personagem Benjamin deitado em sua cama, em um enquadramento que parece encarcerá-lo entre os limites da tela. É interessante traçar paralelos entre os sentimentos do personagem e estes enquadramentos da câmera.

    Quando a trupe do circo chega à casa do prefeito para almoçar, o enquadramento da câmera nos faz olhar do alto para as pessoas que estão embaixo. Este é o chamado enquadramento “plongée” – que, em francês, quer dizer “mergulho” – e produz um efeito de diminuir o objeto ou a pessoa enquadrada. Nesta cena, os artistas do circo (quando não estão em cena) são inferiores às autoridades da cidade (o prefeito e sua família). Em seguida, podemos ver o efeito contrário, chamado de “contra-plongée”, em que os artistas veem a família do prefeito no alto, mostrando sua superioridade.

    Ainda no almoço na casa do prefeito, o cenário composto pelo núcleo de arte, cria situações muito engraçadas com objetos pendurados na parede, sempre de animais com chifres ou plumas, dialogando com o “mise em scène” (encenação ou composição da cena) dos personagens. Em vários momentos os diálogos ocorrem com chifres ao fundo, sendo que ao final dessa sequência, o personagem Borrachinha parece mesmo ter chifres na sua cabeça.


Algumas informações complementares:

    O nome do palhaço Benjamin é uma homenagem ao palhaço Benjamin de Oliveira, um ex-escravo que fugiu com um circo e tornou-se famoso; O nome de Valdemar é uma homenagem ao palhaço Arrelia (Valdemar Seyssel) e o sobrenome Savalla Gomes é uma homenagem ao palhaço Carequinha que tinha o prenome George.

    Você pode conhecer mais sobre a memória do circo nos sites: http://www.circonteudo.com.br/v1/, da pesquisadora Hermínia Silva e do Centro de Memória do Circo, cujo site pode ser consultado no link: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/patrimonio_hi...

    Selton Mello faz várias homenagens a figuras lendárias da nossa dramaturgia. A começar por Paulo José que faz o palhaço Puro Sangue. Mas ao buscar o tom do humor puro do circo, chama humoristas e atores antigos que nem sempre são lembrados pela mídia, como Moacyr Franco, na impagável cena como Delegado Justo; Jorge Loredo (que fazia o personagem Zé Bonitinho) que, aos 86 anos, faz o homem que consegue fazer Benjamin dar risada e Ferrugem, como o atendente da prefeitura que providencia o RG;

    Selton Mello declara-se totalmente influenciado por Charles Chaplin, Fellini e Didi Mocó (personagem e Renato Aragão). Alguns outros filmes que dialogam com O Palhaço e cuja ambiência está presente nesta obra, quer pela música, iluminação ou cenário O Circo, de Charles Chaplin; Os Palhaços, de Federico Fellini; A Viagem do Capitão Tornado, de Ettore Scola, Os Saltimbancos Trapalhões, de J. B. Tanko, entre outros.