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Prof. Dr. Adilson Citelli


 

“A biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, cuja circunferência é inacessível” (Jorge Luís Borges)

“Uma biblioteca permite que se procure Marx, encontre-se Schopenhauer e se requisite a Bíblia” (Ernst R. Hauschka)

 

O lugarejo de São José do Paiaiá, localizado entre Alagoinhas e Nova Soure, na Bahia, há quase 300 quilômetros de Salvador, possui em torno de 500 habitantes. Fica no sertão, no início da caatinga, lugar por onde peregrinou Antônio Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro, até fixar-se, não muito longe dali, em Canudos. Nada em Paiaiá despertaria interesse ou chamaria atenção, a não ser pelo singelo e inusitado fato de ter a maior biblioteca rural do mundo. São aproximadamente 62.000 exemplares e mais 20.000 à espera de espaço para serem devidamente disponibilizados à leitura. Ou seja, há mais livros naquele ponto do país do que na maioria das ricas cidades do Estado de São Paulo e nas centenas de faculdades e universidades espalhadas do Oiapoque ao Chui.

Caminhando entre as estantes da Biblioteca Comunitária Maria das Neves Prado, fundada em 2002, o consulente encontrará desde obras ofertadas por Antonio Candido, cuja carta manuscrita de encaminhamento do material está devidamente enquadrada e posta em um setor da biblioteca, passando por uma edição de bibliófilo, como o exemplar devidamente numerado, de O retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde, indo a Carlos Drummond de Andrade, Marx, Graciliano Ramos, Foucault, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda; materiais de teoria literária, história, geografia, linguística, psicanálise; enciclopédias, dicionários; textos em inglês, francês; uma fantástica coleção Brasiliana; periódicos, histórias em quadrinhos, DVDs. Enfim, tudo o que se pode esperar de uma boa biblioteca, inclusive um site extremamente funcional disposto no endereço: http://bibliotecadepaiaia.blogspot.com

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O autor do feito é um filho da terra, que de lá saiu há quase meio século e para lá voltou sob a generosa manifestação de alguém que pode entregar ao seu torrão de origem o único bem que acumulou ao longo da vida: livros e o que deles decorre. O educador sertanejo atende pelo nome de Geraldo Moreira Prado. Saído de Paiaiá, ainda moço, foi para São Paulo onde passou as dificuldades dos migrantes, trabalhando como faxineiro, em portaria de prédio e no que mais viesse para pagar o pão de cada dia. Cursou madureza, ingressou na Universidade de São Paulo, inicialmente na recém criada área de Estudos Orientais, passando, depois, para História. No tempo em que habitou a então terra da garoa recebeu o apelido de Alagoinhas, dado por Gilberto Felisberto Vasconcelos. Militou no movimento estudantil, morou no CRUSP, subiu e desceu, foi e veio, até receber o diploma de historiador. No final de 1977 mudou para o Rio de Janeiro, fez doutorado, trabalhou no IBICIT (Instituto Brasileiro de Informação Ciência e Tecnologia), em Faculdades particulares, ministrou palestras mundo afora. Aposentou-se como professor do Programa de Mestrado e Doutorado em Ciência da Informação (convênio IBICT/MCT_UFRJ). Continua como docente colaborador do mesmo Programa.

A iniciativa de Geraldo Prado foi, de início, obra de sua única e exclusiva responsabilidade. Juntou os livros que acumulou ao longo dos anos – e ponha livro nisto – agregou doações, providenciou transporte, com ajuda da empresa Itapemirim. Os pacotes baixaram sãos e salvos na distante Paiaiá. Para abrigar o material comprou e pagou do próprio bolso duas pequenas casas, devidamente reformadas para receber o acervo. Em seguida ergueu, em terreno contíguo existente atrás dos dois imóveis um prédio de três andares, ao qual este escriba chamou de Empire State of Paiaiá. Deve ser o maior de toda a região. O espaço do primeiro andar recebeu novas estantes para acomodar milhares de volumes. O segundo andar foi reservado para os computadores doados pelo programa de inclusão digital do SERPRO; para atividades coletivas, que podem incluir pintura, crochê, reuniões da Associação Atlética, que mantém dois times de futebol infantil masculinos e dois times de vôlei femininos; para discussões sobre meio ambiente, sustentabilidade, cidadania, etc. No último andar, de onde se vislumbram os vastos sertões, um pequeno apartamento/escritório – mas aberto a quem precisa – para abrigar o responsável pela iniciativa quando presente na comunidade. O cotidiano da biblioteca é tocado por um sobrinho, a quem Geraldo paga um salário mínimo, que quando começou a colaborar estava no ensino fundamental e, agora, às vésperas de concluir o curso de Letras em Faculdade da região. O moço tomou gosto pela coisa.

Walnice Nogueira Galvão, professora emérita da FFLCH, amiga de Geraldo Prado, e que também visitou a Biblioteca, lembra que não foi fácil a vida do nosso educador sertanejo. “Os habitantes locais têm orgulho da biblioteca, abrigam sentimento de posse e de proteção para com ela, e era isso mesmo que ele queria. Só no começo houve certa resistência por parte de algumas pessoas. A exemplo de uma senhora, que viu na televisão a história de um roubo de livros em algum lugar famoso e , quando deparou com o caminhão encostado e descarregando tantas toneladas, achou que eram do roubo que assistira: ela foi de casa em casa prevenindo as pessoas. E o padre, por causa da fama de “comunista da USP”. Mas tudo isso passou e hoje o padre é outro grande fã e incentivador da biblioteca” 1 do lugar.

A biblioteca tem extrema importância para a vida da região. Sendo local para onde acorrem os leitores, boa parte formada por jovens estudantes das escolas do ensino básico e superior da região, funciona, também, como indutor de ações culturais e de integração às artes, à informática, ao trabalho coletivo. Isto permitiu uma melhoria no desempenho das crianças; na escola de Paiaiá, da qual se pode ter um controle mais direto, registra-se sensível melhora na performance das crianças, assim como diminuição nos índices de reprovação. Ademais, pela extensão e qualidade do material reunido na biblioteca, pesquisadores ligados às Universidades Federal e Estadual da Bahia a têm frequentado.

Geraldo Prado conta, agora, com iniciativas para doações e mesmo algum aporte financeiro resultado de projetos que elabora quase em tempo integral, pois, como se sabe, captar recursos em agências de financiamento ou agregar parcerias é trabalho diuturno. Por ser uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), a biblioteca deveria receber aporte do FUST, o que, infelizmente, não tem acontecido2. Através dos projetos que elabora, a biblioteca vem conseguindo viabilizar parcerias com instituições como: Banco do Nordeste, Itaú Cultural, Brazil Foundation, BNDS, IBICT, Instituto HSBC, Bravo Youth Foundation, governo federal, através dos Pontos de Cultura, Sindicato dos Trabalhadores(as) de Nova Soure, Secretaria da Cultura do Estado da Bahia, Ministério do Meio Ambiente, Ministério do Desenvolvimento Agrário, etc.

A biblioteca, além de cumprir objetivos de dar suporte aos alunos e professores da região, que inclusive a tem como espaço para estudo, realização de trabalhos, funciona como elemento de indução cultural e de recuperação de valores do povo do sertão. No tempo em que lá passamos pudemos acompanhar a iniciativa da biblioteca promovendo uma belíssima festa, chamada de Nos acordes da Sanfona. No dia 16 de julho de 2011 foram homenageados, com um festival de acordeão, realizado por excepcionais músicos da região, dois sanfoneiros filhos da terra, já falecidos, e que acompanharam o grande Luiz Gonzaga: Zequinha de Maria da Inacinho e Dedinho de Zé da Tereza. Registram-se os nomes para enfatizar o modo singular como são nomeadas as pessoas naqueles sertões.

Por tudo o que representa a biblioteca de Paiaiá, Dona Maria das Neves Prado, deve estar orgulhosa não apenas pelo preito do qual foi objeto, mas, nalgum canto do céu onde se encontra, admirada pelo persistente trabalho do sobrinho que rodou o mundo e não perdeu a alma sertaneja. E nós, que andamos pela pequena rua onde praticamente mora toda a população do Paiaiá em suas casinhas típicas do interior do Nordeste, com os seus vaqueiros, trabalhadores rurais, crianças que acorrem à única escola do povoado, sentimos a alegria daquela gente em estar sob a sombra da maior biblioteca rural do mundo. Sendo ela a realização do sonho de um homem e motivo de júbilo de uma comunidade, poderia funcionar como exemplar estímulo metonímico para o resto do país.


 

Adilson Citelli é professor títular do Departamento de Comunicações e Artes da ECA/USP